
Não tem jeito! Por mais que procuremos ter ascese, auto-controle, boas maneiras, educação, delicadeza, sensibilidade e sensatez, tem dias que a gente acorda “daquele” jeito!!!! Quando isso acontece, acho que ajuda:
1) recolher-se em Deus;
2) falar o mínimo possível pra não magoar nem irritar ninguém (isso também evita ouvir coisas que te enervariam mais...);
3) ouvir uma boa música, comer alguma coisa gostosa, e quem sabe até tomar um vinho;
4) fazer algo que realmente dê prazer e eleve o bom ânimo (as vezes algumas coisas que elevam o bom ânimo não são tão prazerosas, por exemplo: capinar, ...mas funciona que é uma beleza!!).
O que me instiga a escrever hoje são aquelas “respostas prontas” que recebemos de vez em quando daquelas pessoas que não se lembram de nos ligar, de fazer uma visita, de mandar um email que seja...Essas pessoas raramente se preocupam em saber de fato como estamos, e quando perguntam, parecem que o fazem mais por convenção do que por qualquer outra coisa, tão indispostas estão de deixar um pouco de si na reciprocidade da pergunta. Parecem mesmo que querem arrancar algo do nosso íntimo para, em seguida, fartar-nos com suas “receitas de vida”, como aqueles bolos de caixinha que compramos semi-prontos, querendo que elas nos desçam goela abaixo! O pior é quando se percebe que aquele discurso parece ser para convencer a si mesmo (e não a outrem) de algo, tamanha a visível inquietude nas palavras do locutor! Quem já passou por isso sabe exatamente do que se trata!!!
Todos erramos, tropeçamos muito, caímos inúmeras vezes, mas isso é natural em qualquer percurso!
Penso que quando buscamos de coração sincero, a Verdade se deixa encontrar.
Mas para isso é preciso paciência, humildade, perseverança....
Cântico Negro (por José Régio)
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!