quarta-feira, 4 de março de 2009

Remexendo no baú de dores



Ontem o dia estava pesado e difícil - por dentro - Sentia-me frágil como uma folha ao vento, com um soluço preso na garganta e o peito apertado...
Remexer em nosso "baú de dores" nunca é fácil. É preciso muito equilíbrio e maturidade para não deixar que os fantasmas da nossa memória tumultuem o momento presente, que realmente é um presente, um dom de Deus para nós. Fato é que podemos deixar esses fantasmas (escondidos no castelo de nossa memória afetiva)tomarem corpo e vida, e pior, tomarem a nossa própria vida, roubando-nos a alegria, liberdade e vivacidade. Como é fácil nos deixar levar por uma ventania de impressões, de medos, de inseguranças que NA GRANDE MAIORIA DAS VEZES NEM SÃO REAIS, existem apenas na nossa imaginação, nos nossos registros interiores.
É preciso coragem para encará-los de frente e paciência para esperar que eles se dissipem através de um profundo e verdadeiro processo de auto-conhecimento, de superação e de amor próprio (não egoísmo, que só reforça a auto-piedade e inércia interior, mas amor-próprio verdadeiro, nascido da experiência de quem se conhece, quem "toca" com as mãos a própria miséria e ainda assim se sabe amado por Deus.

Chegou-me este texto da Lya, como um abraço. Consolo para dias gris...Deo gracias...

"Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias."

O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

2 comentários:

Iza disse...

oi amiga...

meu baú de dores também está todo mexido...revirado e revirado...Ai... será que um dia isso vai passar???

Bejim...
Iza

Hudson Nogueira disse...

O que esperar do Mar Absoluto senão sua profundidade...

Que a areia do tempo sedimente os fantasmas e então, com os ventos da vida madura, serão varridos para fora do castelo. Alegria aos ventos que já chegam.